Uma leitura do Cabo Bojador e do poema “Mar Português”, de Fernando Pessoa.
“Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.”
Fernando Pessoa (Mar Português)
O limite e o medo
Durante séculos, o Cabo Bojador, no litoral do Saara Ocidental, foi um ponto do medo humano.
A costa, nessa região, é rasteira, com baixios e bancos de areia perigosíssimos. Os navios que tentavam contornar o cabo, muito próximos da costa, encalhavam e eram destruídos.
Diziam que, além dele, o mar fervia e monstros devoravam as embarcações. Era o limite do mundo conhecido, um lugar onde o homem projetava suas fantasias e temores.
Os marinheiros tinham medo e um respeito aterrorizante. Diziam que:
- O mar depois do cabo fervia por causa do calor;
- Havia monstros marinhos;
- Não havia vento para voltar;
- Correntes violentas empurravam as naus para naufrágios.
Sob o patrocínio do Infante Dom Henrique, o Navegador, Gil Eanes conseguiu cruzar o temido Cabo Bojador, em 1434, valendo-se de uma estratégia náutica inédita. Navegou para longe da costa, avançando mar adentro, antes de retomar a direção sul.
Essa manobra permitiu contornar os perigos que haviam impedido todos os navegadores anteriores. Ao evitar o trecho mais turbulento junto à costa, Gil Eanes driblou as correntes contrárias que tornavam a navegação impossível.
Diante dos medos e mitos que cercavam o Bojador, realizou uma expedição racional e ousada. Quanto ao risco de não conseguir retornar, soube utilizar os ventos de retorno do Atlântico Norte.
Gil Eanes não enfrentou o Cabo Bojador de frente; contornou-o, afastando-se do litoral e confiando-se ao mar aberto.
Resultado histórico
Ao cruzar o Cabo Bojador, Gil Eanes rompeu a fronteira do mundo medieval e abriu caminho para:
- a exploração da costa africana;
- a expansão marítima portuguesa;
- a descoberta da rota para a Índia e o Brasil, no século seguinte.
Essa manobra só foi possível porque os portugueses já começavam a compreender os ventos e as correntes oceânicas — um conhecimento que mais tarde seria sistematizado como a Volta do Mar, essencial para as grandes navegações.
Essa travessia tornou-se um símbolo do gesto humano de ultrapassar limites. Fernando Pessoa, em seu poema Mar Português, escreve:
“Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.”
O gesto de atravessar
Quando Gil Eanes ousou cruzar o Cabo Bojador, não foi apenas uma façanha náutica. Foi o gesto inaugural de quem se arrisca diante do impossível.
Essa travessia marca o instante em que o desejo supera o medo — o momento em que se arrisca tudo para encontrar algo que ainda não tem nome.
Na clínica psicanalítica, o sujeito realiza um movimento homólogo: atravessar o próprio Bojador.
Cada sessão é uma navegação pelo que escapa à consciência: um contorno pelas próprias águas. O Bojador representa uma passagem — um limiar, uma travessia.
O mar em Pessoa
Fernando Pessoa, em seu poema “Mar Português”, transforma o oceano em uma metáfora do destino e do desejo:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Em Pessoa, o mar é um vasto imprevisível, movido por correntes invisíveis.
“O ‘sal do mar’ é o sal das lágrimas, das perdas que acompanham toda travessia. Assim também o sujeito, ao atravessar suas próprias águas, realiza uma renúncia para abrir-se ao que só não sabia que sabia.
O inconsciente murmura, insiste, chama…
Freud nos apontou que “o eu não é senhor em sua própria casa”.
Lacan, mais tarde, retomaria essa travessia, mostrando que o sujeito é efeito da linguagem — um viajante que se orienta por significantes.
Travessia e desejo
A análise é, então, uma viagem…
Cada palavra dita em análise é como uma vela que se ergue, empurrando o sujeito para além de sua própria versão.”
E, como diz Pessoa, é preciso atravessar a dor:
“Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”
Conclusão:
O Bojador é metáfora do ponto em que o sujeito hesita — o ponto em que se teme perder-se, mas também aquele onde se pode, finalmente, encontrar o próprio desejo.
Atravessar, em psicanálise, não é ir de encontro ao que resiste, mas operar um contorno. É nesse deslocamento— sustentado pela palavra e pela transferência — que algo do sujeito pode, enfim, passar.
O analista sustenta o espaço da travessia, acompanha o sujeito e aposta nessa travessia.
Navegar é preciso.
E talvez, como em Pessoa,
“Tudo valha a pena se a alma não é pequena.”
EDSON ZAGHETTO